Baladas hespaciais

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Qui, 21 de Agosto de 2008 13:22
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Não querendo ser injusto nem ajudar mais ainda a confusão que já reina nessa web fora, decidi pôr as coisas em pratos limpos para que fique tudo muito claro.

A minha troca de galhardetes com o João Matos foi interessante, e tenho de admitir que os meus escritos baralham um pouco os conceitos que tão sagrados são para os mais puristas. Não querendo ser injusto nem ajudar mais ainda a confusão que já reina nessa web fora, decidi pôr as coisas em pratos limpos para que fique tudo muito claro.

Passemos então às definições inequívocas, puras e duras:

  1. Livre” (”Free Software“): A obra intelectual que mantém e defende as 4 liberdades definidas por Stallman, a saber:
    1. A liberdade de usar a obra, independentemente do propósito, contexto, ou condições;
    2. A liberdade de estudar o funcionamento da obra e adaptá-la às nossas necessidades;
    3. A liberdade de redistribuir livremente a obra para ajudar o próximo;
    4. A liberdade de melhorar a obra, e contribuir as melhorias para a comunidade.
  2. Aberto” (”Open Source“): Um compromisso prático que surgiu a partir do SW Livre, mas que entra em conflito com ele por ser menos exigente na defesa da Liberdade. Centra-se no respeito pelos Direitos de Autor e na capacidade de fazer negócio, para além do mesmo espírito de entreajuda e Comunidade. As regras base são:
    1. Distribuição Gratuita - não se pode cobrar dinheiro pela (re)distribuição de uma obra Aberta; no entanto, nada impede a agregação dessa obra num pacote juntamente com outras obras que sejam vendidas.
    2. Acesso total ao Texto-Fonte - o texto-fonte da obra tem de estar disponível para permitir a compreensão e a contribuição.
    3. Obras derivadas - a obra deve poder servir de base para outras obras, obrigatoriamente nos mesmos termos que lhe deram origem.
    4. Integridade do Trabalho do Autor - a origem da obra ou de qualquer modificação deve manter-se claramente identificada. O autor pode exigir que obras derivadas sejam publicadas sob diferente denominação.
    5. Não discriminação - a obra deve estar disponível para todas as pessoas e grupos de pessoas, e também para aplicação em qualquer utilização ou campo (negócios incluídos).
    6. Manutenção dos direitos - os direitos distribuídos com a obra não podem ser reduzidos através de outros acordos, nem afectados em caso de a obra ser dividida ou separada da sua distribuição original.
    7. Não intrusão - os direitos dizem respeito apenas à obra em questão, e não devem interferir nem fazer exigências sobre outras obras distribuídas conjuntamente.
    8. Agnosticidade tecnológica - os direitos são conferidos independentemente da tecnologia de distribuição da obra.
  3. Gratuito” (”Freeware”): À borla. Simples.

As duas primeiras definições são praticamente iguais nos seus efeitos práticos, com excepção do ponto 7 da definição “Aberta”. Stallman considera que o SW Livre não deve ser “poluído” pela mistura com SW Proprietário ou Fechado, enquanto que a comunidade Aberta contenta-se com um compromisso prático.

De resto, ambas as definições implicam, directa ou indirectamente, gratuitidade. Para o Livre, é condição essencial que a obra não custe dinheiro porque isso limitaria o acesso ao grupo de entidades que pudesse pagar o preço. Para o Aberto, não faz sentido vender uma obra intelectual na sua forma compilada, quando a oferecemos publicamente na sua forma textual ou primária; qualquer idiota poderia fazer-nos concorrência com o nosso próprio produto reempacotado, e por isso resolve-se o problema removendo o preço de venda.

Feitas as definições, olhemos então para a realidade em que vivemos… é mesmo no compromisso Aberto que vivemos, e não na utopia Livre.

Quem usa uma distribuição GNU/Linux recente acaba mais tarde ou mais cedo por misturar SW Livre com proprietário. Por exemplo no Ubuntu, a instalação é sempre feita com o máximo respeito pelo SW Livre, e nada que não seja Livre está contido. Mas logo a seguir o que fazemos? Activamos os repositórios de SW Aberto e até mesmo Proprietário, pois a vida é muito mais fácil quando podemos usar o Adobe Flash Player, o Google Earth, os controladores nativos das gráficas nVidia e das várias placas de rede sem fios, e os codecs de áudio e vídeo que o resto do mundo ainda usa (mp3/mpeg/w.media), para mencionar apenas alguns exemplos…

Pessoalmente, vejo isto como uma fase de transição; não podemos simplesmente deitar fora tudo o que existe apenas porque é proprietário - isso é estúpido e impede o bom funcionamento da sociedade. Podemos sim, usar o que houver disponível, e trabalhar para um mundo melhor, dia após dia. A pouco e pouco, podemos substituir as “gaiolas douradas” do SW Proprietário (ou as gaiolas brancas/alumínio em que vivem os MacIntosh’ianos) por alternativas Livres, e estas tenderão a tornar-se tão boas ou melhores que o existente (tal como já se comprovou tantas vezes em tantas áreas). Na área dos media codecs, já temos bons substitutos como “Ogg-vorbis“(áudio) e “Ogg-theora“(vídeo), mas a adopção vai levar tempo. Na área dos flash players, há variadíssimas iniciativas, mas os plugins de browser ainda rebentam como tortos, é preciso tempo para amadurecerem. Na área dos controladores de dispositivos, há fabricantes de Hardware que começam a perceber a mensagem e já colaboram com Linux, uns ainda a medo, outros com pompa e circunstância como a ATI. Na área das distribuições GNU/Linux para telemóveis e PDA, o último ano tem visto uma tal explosão de iniciativas e adopção por parte dos fabricantes, que me arrisco a dizer que dentro de 1 ano quase todos os telemóveis correrão Linux… e os portáteis para lá caminharão dentro de 2 anos.

Meus amigos, a “guerra” do SW Livre está ganha. Leiam as notícias. Basta não parar de fazermos aquilo em que acreditamos. É uma questão de tempo até o SW Proprietário voltar a ser a minoria (sim, voltar, pois no princípio tudo era Livre). Para mim, não faz sentido discutir os pormenores extremamente específicos das diferenças entre as definições Livre e Aberto; faz sentido sim, unir a Comunidade Colaborativa, sem bandeiras demasiado orgulhosas, e partilhar e contribuir, sempre com respeito. Na nossa família, na nossa comunidade local, na nossa escola, na nossa empresa, no nosso Estado, há sempre oportunidades de aplicação do SW Livre como gerador de melhoria de vida. Basta estar acordado.

O nosso respeito deve incluir aqueles que vendem sem nada partilhar; lá porque eles hoje ainda não aprenderam a formular um modelo de negócio que não dependa da restrição artificial de um recurso livre, não quer dizer que amanhã não se reinventem e não encontrem maneiras valiosas de contribuir!

 

Fonte:vnevoa

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Última atualização ( Seg, 25 de Agosto de 2008 21:45 )
 
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